Resenha
“As três idades da vida interior” é a obra-prima do dominicano Fr. R. Garrigou-Lagrange, um dos mais importantes teólogos do século XX. Nela, o autor ofereceu uma contribuição mui decisiva na restauração dos estudos ascéticos-místicos, sobretudo na doutrina do chamado universal à santidade. Grandes eram os desvios que ameaçavam a unidade do itinerário da vida espiritual.
Nos séculos precedentes, uma lastimosa influência acarretara o divórcio entre a vida ascética da mística: esta, reservada para uns poucos privilegiados; aqueloutras, porém, destinada à grande massa dos simples fiéis. Em contrapartida, valendo-se da rica tradição da Igreja – especialmente de São João da Cruz, São Francisco de Sales e, não menos, da teologia de Santo Tomás de Aquino – cada capítulo desta obra constitui uma sólida defesa da santidade cristã e da graça da contemplação infusa.
Apoiado na autoridade destes mestres, pode então concluir: “Assim encontramos uma confirmação daquilo que cremos ser a verdade sobre a contemplação infusa dos mistérios da fé, que nos aparece cada vez mais na via normal da santidade, e moralmente necessária à plena perfeição da vida cristã.”
A obra, ao contrário do que possa parecer num primeiro juízo, é menos um tratado especulativo do que um verdadeiro alimento para a vida interior, um autêntico manual para todos aqueles que desejam entregar-se a Deus generosamente e crescer em sabedoria e graça.
Trecho da Obra
“Podemos assim definir a vida interior: é uma vida sobrenatural que, por um verdadeiro espírito de abnegação e de oração, nos faz tender é união com Deus e a ela nos conduz. Ela inclui uma fase onde predomina a purificação, e uma outra de iluminação progressiva em vista da união com Deus, como ensina toda a tradição, que assim distingue a via purificadora ou purgativa dos principiantes, a via iluminativa dos adiantados e a via unitiva dos perfeitos. A vida interior se torna assim, cada vez mais, um diálogo com Deus, em que pouco a pouco o homem se desprende do egoísmo, do amor-próprio, da sensualidade, do orgulho, e, pela oração frequente, pede ao Senhor as graças sempre novas de que necessita. Dessa forma, o homem começa a conhecer experimentalmente, não mais somente a parte inferior de si mesmo, mas a parte mais elevada. Sobretudo, ele começa a conhecer a Deus de uma maneira vital; começa a ter a experiência das coisas de Deus. Pouco a pouco, o pensamento em nosso próprio ‘eu’, para o qual tudo fazíamos convergir, dá lugar ao pensamento habitual em Deus. E então, progressivamente, o amor egoísta a nós mesmos e ao que há de menos bom em nós dá lugar ao amor a Deus e às almas em Deus.” (As três idades da vida interior, cap. II – A vida interior e o diálogo íntimo com Deus).
Biografia do Autor
Fr. Réginald Garrigou-Lagrande foi um dos mais eminentes teólogos católicos do século XX. Lecionou no Angelicum de Roma – Pontifícia Universidade Santo Tomás de Aquino – entre 1909 e 1960, formando diversas gerações de jovens teólogos. Teve entre seus alunos São João Paulo II e o Bento XVI. Além de ser considerado um dos maiores estudiosos da obra de Santo Tomás de Aquino, escreveu de forma abundante sobre Teologia Ascética e Mística, guiado pelos princípios tomistas e apoiando-se nos ensinamentos de São João da Cruz e de São Francisco de Sales – além de sua experiência pessoal e pastoral da vida interior.